quarta-feira, 7 de outubro de 2009

A festa (conto)

Ao primo canto do galo, a festa acabou. Como por encanto, a música cessou, a luz se apagou, as janelas do casarão no fim da rua se fecharam. Ninguém saiu, ninguém entrou. Como sempre.

Os vizinhos já tinham presenciado aquilo algumas vezes, mas nunca se acostumaram. Antes, ainda se aproximavam da casa iluminada, intrigados por não terem visto ninguém chegar nem entrar. Nada se via lá dentro, embora a música tocasse e o vozerio saísse pelas janelas. Estas eram altas, é verdade, mas permitiriam pelo menos divisar cabeças, o que não acontecia. A porta da frente sempre ficava fechada.

O pessoal então voltava no mesmo pé, se benzendo. No início, chegaram até a questionar a senhora que ali morava sobre aquelas manifestações, mas ela respondera secamente:

- É um encontro de velhos amigos.

Dona Mercedes morava sozinha e reclusa, desde que ficara viúva há vários anos. Não tinha filhos nem parentes vivos. Ninguém a visitava regularmente, só uma antiga empregada, Otília, que ainda vinha fazer o serviço diário. Ela mesma nunca vira nada de extraordinário por lá, e, um tanto seca, não gostava de conversar sobre os hábitos de sua patroa. Cortava sempre a curiosidade alheia. Toda quinzena ela trazia uma sobrinha para ajudá-la na faxina.

De dia, havia algum movimento lá dentro, principalmente na cozinha e nas dependências de trás. À tardinha, entretanto, a empregada se retirava e o silêncio caía sobre o casarão. Dona Mercedes ficava só, com as suas lembranças.

Quando a solidão apertava, ela resolvia dar uma festa. Para seus convidados.

A casa era toda decorada com móveis e peças antigas e valiosas, resquícios de um passado opulento. Pratarias, faianças, louças e cristais estrangeiros se distribuíam pelos ambientes. Toda semana dona Mercedes, pessoalmente, supervisionava a faxina da casa, principalmente a cuidadosa limpeza de suas antiguidades.

Otília ficava imaginando para quem iria aquilo tudo depois que ela morresse. Que soubesse, de conhecido dona Mercedes só tinha um velho advogado que cuidava de seus interesses e que a visitava duas vezes por ano, para assinatura de papéis.

No grande salão de visitas, havia um quadro que cobria boa parte da parede. Retratava uma festa, gente sentada conversando, outras de pé, pares dançando ao som de uma orquestra de cordas, ao fundo. Todos bonitos, muito bem vestidos, como antigamente. Mas as fisionomias eram familiares à velha senhora.

Alguns anos após perder o marido e sentindo a saudade, a solidão e o peso da idade chegarem, dona Mercedes encomendou a tela a um pintor famoso. Entregou-lhe vários retratos, do marido, de parentes e amigos mais próximos, já mortos, todos queridos, com as seguintes recomendações: os retratados deveriam mostrar-se alegres, sorridentes, seus rostos voltados para a frente; os olhos convergindo para um ponto de tal forma que, de qualquer parte da sala onde estivesse o observador, todos estariam olhando para ele.

O salão normalmente ficava fechado e só era aberto para a faxina ou quando dona Mercedes dava seus saraus.

Nessas ocasiões, após a saída da empregada, ela se vestia a caráter, acendia as luzes da casa, abria os janelões e colocava no toca-fitas uma gravação de som ambiente de festa, com conversas, risos e música ao fundo - única concessão moderna que aceitara em sua vida, por conveniência.

Sentava-se então na poltrona em frente ao quadro, com uma taça de vinho na mão, e seu espírito se integrava ao ambiente da tela, conversando e confraternizando-se com os entes queridos.

Um dia, a gravação se calou, as luzes não se apagaram quando o galo cantou. A manhã chegou e as janelas continuaram abertas. Quando Otília a encontrou, a velha senhora estava ainda em sua poltrona. Parecia dormir serenamente, com a taça tombada aos pés e o vinho derramado no tapete.

Na quadro em frente, as figuras agora tinham os rostos sérios, tristes, lágrimas escorridas pelas faces. Os instrumentos pendiam inertes nas mãos dos músicos.

Não mais se dançava, não mais se conversava. Não mais haveria festa naquela casa.

(Publicado em A Tarde Cultural - 26.08.2000)

9 comentários:

  1. esse texto tem algumas partes que sao dificil de compreender.

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  2. Esse texto é perfeito.À medida que eu lia, crescia a minha curiosidade, a minha imaginação...Quem começa realmente não para no metade, pois o autor soube nos "prender" aos encantos dessa misteriosa festa.

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  3. eu acho essa historia facinante e misteriosa e gostei muito

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  4. É MARAVILHOSO, JÁ TRABALHEI DUAS VEZES COM MEUS ALUNOS EM SALA DE AULA. ÓTIMO PARA TRABALHAR CONTO FANTÁSTICO. PARABÉNS!

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  5. lindo esse texto, doa esrcedes!!

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  6. muito lixo esse texto

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  7. veia chata enche o saco

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  8. Minha professora já leu ese texto umas 5.000 vezes não que eu num goste do texto mas já enjoou velho toda hora ela pede um trabalho sobre essa poha desse texto va a merda.!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

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  9. Minha professora ditou esse texto duas aulas inteiras pra esse texto,matou a gente de tanto escrever kkkkkkkkkk mas é legalzin gostei do texto mas não de escrever ele

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