Mostrando postagens com marcador geometria. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador geometria. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Encomenda (miniconto)

Encomendaram-lhe um romance. Ora, já havia publicado um que lhe tomara cinco anos de vida. Assegurara-lhe algum prestígio, mas dinheiro, nada. Nele, esgotara o assunto, não pensava mais em nada que pudesse servir de enredo tão espichado.

A vida passava rápido, as coisas aconteciam de maneira vertiginosa, já não lhe apetecia ficar sentado horas a fio, dias e dias, meses após meses, entra ano, sai ano, tecendo uma trama comprida com os mesmos personagens.

Não, não iria fazer isso de novo. Não tinha paciência. Sentia-se entediado. A partir de agora, suas histórias seriam rápidas, do tipo que as pessoas pudessem ler de uma sentada. Na viagem de ônibus de casa para o trabalho, na sala de espera do consultório médico, na fila do banco. Ou, até melhor, em locais bucólicos como o jardim da praça ou a areia da praia.

Coisas breves, concisas. Não aqueles enredos de linhas paralelas, que às vezes se aproximam mas só vão se encontrar mesmo lá longe, no infinito. Mudaria a geometria da sua escrita. Uma linha não seria mais uma linha cheia, contínua, interminável. Ela agora seria pontilhada: cada ponto, uma história inteira, acabada.

Decidido, pegou o envelope da editora, onde viera a carta de encomenda e o cheque de adiantamento — bem alentado, até —, rabiscou um “recusado, obrigado, mudou de ramo” e foi devolvê-la na agência dos Correios.

Agora, só escreveria contos curtos. Assim seria, pois!